A depreciação efetiva de veículos no mercado brasileiro tem superado significativamente os índices apontados por tabelas de referência tradicionais do setor. Levantamento apresentado por J. R. Caporal, CEO da Mega Dealer e presidente da Auto Avaliar, e Bruno Leite Ferreira, diretor comercial de atacado da empresa, mostra que a queda média de preço ao consumidor nos últimos doze meses chegou a 10,2%, mais do que o dobro da variação média de 4,0% registrada pelas tabelas de referência no mesmo período — e, em casos específicos, a diferença entre o preço real de mercado e a referência tabelada chegou a superar vinte vezes.
Para empresas que gerenciam frotas, a defasagem pode significar perda direta de receita, já que o preço de hoje tende a ser sempre melhor do que o preço de amanhã. Os executivos também apresentaram um conceito batizado de “risco de capital”, que resulta da combinação entre a pressão de preço exercida por novos lançamentos, os descontos praticados em veículos zero-quilômetro e o tempo em que um veículo usado permanece parado no estoque sem ser vendido. Segundo eles, esperar por uma proposta melhor tem custo mensurável: um exemplo apresentado na palestra mostrou que, em apenas trinta dias, a combinação entre depreciação e custo financeiro pode consumir mais de R$ 3.600 do valor de um veículo popular, o equivalente a cerca de R$ 900 por semana parado. Para conter esse risco, os palestrantes defenderam quatro frentes de atuação: comprar de forma criteriosa, acompanhar a depreciação de maneira contínua, priorizar o giro do estoque acima da margem obtida em cada venda isolada e reiniciar o ciclo com ativos bem posicionados no mercado.
Outra mudança com impacto direto sobre o caixa das empresas do setor é a reforma tributária. Com a adoção do split payment — mecanismo pelo qual o valor do imposto é automaticamente separado e recolhido no momento do pagamento, em vez de ser apurado e pago pela empresa em etapa posterior —, o recolhimento de tributos passará a ocorrer no ato da transação, e não mais em prazos que hoje chegam a meses, tornando obrigatória a separação clara entre preço da mercadoria e carga tributária nas operações. O modelo já é consolidado em países europeus com IVA, onde o imposto funciona como valor não negociável, embutido no preço final desde a origem. Segundo os palestrantes, o efeito tende a ser mais sensível para empresas menos capitalizadas e para locadoras que adquiriram veículos sob o regime tributário anterior e realizarão a venda já sob as novas regras, cenário que exige acompanhamento próximo de especialistas tributários.
As discussões, promovidas na palestra Gestão Estratégica de Estoque, no âmbito do Rental Mobility, reforçam o papel do evento como espaço de qualificação técnica para o setor de locação de veículos, que reúne cerca de um milhão de veículos em circulação e R$ 104 bilhões em frota em uso no país, mais de 3,9 mil locadoras associadas, faturamento de R$ 17,6 bilhões, mais de 27,7 milhões de usuários e mais de 30 mil empregos diretos, segundo dados institucionais do Sindicato das Empresas Locadoras de Veículos Automotores do Estado de São Paulo (SINDLOC-SP). A Auto Avaliar, responsável pelo levantamento apresentado, atua com seis mil concessionárias e 85% de participação de mercado no segmento, processando mais de R$ 12,8 bilhões em transações por ano. (Foto: Divulgação).
