​Coluna Histórias & Estórias – Por Chico Lelis:

O “som” mais perigoso do trânsito

Muitos ainda devem se lembrar daqueles desenhos animados (hoje chamados animação), em que o coiote era humilhado por um Papa-Léguas (Road Runner) na série Lonely Tunes da Warner Bros, lá pelos anos 70​ ou 60. O pobre do coiote que, na vida real, é mais rápido que o pássaro, passava maus momentos na inversão​ das velocidades criada na série.

E a marca registrada do Papa-Léguas era o seu “bip-bip”, hoje revivido em uma forma simplificada, pelos motoqueiros de entregas​ (conhecidos como motoboys) nas cidades brasileiras, virando apenas “bibibi”! Mas leva a mesma carga de ousadia e desrespeito por tudo que aprendemos em relação ao bom e correto ​modo de trafegar pelas ruas e avenidas das cidades.

Como se fossem milhares de Papa-Léguas, grande parte desses entregadores não respeitam as mais simples regras de trânsito. Trafegam na contramão, sobre as calçadas e para eles o sinal está sempre verde, não importando a via que estão cruzando, que pode ser uma avenida de grande movimento, ou uma rua de bairro. Ligam o “bip-bip” e fazem os motoristas dos outros veículos de verdadeiros “coiotes”

E, se o pedestre que não olhar para os dois lados da via, pode ser surpreendido pelo “Papa-Léguas” que ainda vai xingá-lo, mesmo que ​o sentido da rua seja para a direita e o motoqueiro ​​ia para a esquerda. Isso quando não sobem na calçada para fugir do trânsito parado à sua frente e o “corredor” (espaço entre os carros) está estreito demais para ele conseguir trafegar por ele.

“Por aqui é igual”

Conversando com amigos que moram fora de São Paulo, onde este problema vem se agravando seriamente, sem que as autoridades ponham um fim a esses abusos. Ouvi, de todos eles: “aqui é igual. A diferença para São Paulo é que a cidade é menor, ​com menor números de habvitantes e, consequentemente, motoqueiros. Mas eles também andam na contramão, pelas calçadas, furam sinais vermelhos e não param com o seu bibibibi, atormentando nossas vidas no trânsito. Igualzinho aí em São Paulo”.

São moradores de Curitiba, Goiânia, Fortaleza, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, onde a “doideira” é geral, com eles andando “lapado” (​gíria paraense de grande velocidade​), que causa um número muito grande de acidentes fatais. No Rio de Janeiro, segundo o depoimento de um carioca, que anda de moto para ganhar tempo, mas não pratica irregularidades, eles ​​trafegam até sobre as passarelas.

“Fique longe deles”

Jornalista e ex-instrutor de motociclistas, Gabriel Marazzi recomenda que o motorista fique o mais longe possível de um motoqueiro de entrega pois eles são imprevisíveis. O pai dele, também jornalista, Expedito Marazzi (que já deixou há anos passados) tinha um alerta para os motociclistas:  “você na moto é invisível, por isso fuja dos problemas. Afaste-se dos carros”. Tenho certeza de que hoje o jornalista mudaria o alvo desta frase, dirigindo-as aos motoristas.  

Facilitar? Por que?

Em São Paulo, que já oferece mais de 250 quilômetros de faixa azul, que dá preferência aos motociclistas, existem placas com os dizeres: “Moto facilite a mudança de faixa dos veículos”. Mas, qual o que, nunca tive essa facilitação e não conheço ninguém que a tenha se deparado com algum “Papa-Léguas” que não disparasse o seu “bibibibibibi” e acelerasse (ou torcendo o cabo como se diz em Belo Horizonte), para evitar que o motorista mude de faixa.

Morador em Boynton Beach, uma pequena cidade na Flórida, diz que por lá as entregas são feitas por pessoas dirigindo carros e que poucas motos circulam por lá. ​Entretanto, outro morador dos Estados Unidos, diz que em Washington DC, são muitos os entregadores –​ especialmente de pizzas e comida – que usam motos, em razão das dificuldades de encontrar lugares para estacionar, mas que não existe por lá nenhum “Papa-Léguas” com seu irritante “bipbipi”, ou “bibibibi”.

Ia me esquecendo

Mas não é só de contramão, ignorar sinal vermelho, andar pela calçada, xingar o motorista que não abre o “corredor” para ele passar com a sua moto. Ele também abusa do escapamento aberto. Muitos deles, diante do desgaste do equipamento​ original, ao trocá-lo o fazem por um que não tem abafador de ruído. Daí, haja ouvido para aguentar o som do escapamento aliado ao do “bip-bip” ou melhor “bibibibibibibi”. (Chico Lelis – chicolelis@gmail.com).

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